Se eu, um religioso, disser que sou também cientista, todos estranharão, mas estou certo de que, ao término desta leitura, hão de concordar comigo.
Sua importância (ciência) reside, sem dúvida, na descoberta e no estudo de corpos microscópicos. É claro que isso se deve ao aperfeiçoamento do microscópio, graças ao qual o avanço nesse estudo é impressionante. Conseguem-se distinguir corpúsculos extremamente pequenos, frações da ordem de um milésimo, milionésimo ou bilionésimo. Trata-se de um avanço contínuo, chegando-se ao extremo do microscópico; atualmente se está quase prestes a entrar no mundo do infinito. A palavra espírito, muito empregada ultimamente, deve estar indicando esse mundo. É evidente que o conhecimento do mundo do infinito não se deve a experiências de natureza científica; entretanto, ao aprofundar-se nos estudos científicos, o homem levantou uma tese hipotética sobre ele, baseada na dedução. Se não fosse assim, acabar-se-ia num beco-sem-saída. Ora, o mundo a que nos referimos é justamente o Mundo Espiritual, o que significa que a Ciência, finalmente, está chegando ao lugar certo.
Mokiti Okada, 7 de abril de 1954
Um Cientista Espiritual
Mokiti Okada, conhecido como Meishu-Sama, é amplamente reconhecido como fundador de uma tradição religiosa de origem japonesa. No entanto, sua atuação transcende os limites da religiosidade convencional. Okada se via como um cientista espiritual, alguém que buscava compreender a realidade por meio de uma ciência espiritual — uma abordagem que integra o mundo invisível à dimensão concreta da existência. Para ele, a ciência tradicional, centrada exclusivamente na matéria, estava em um estágio inicial e limitado. Embora tivesse avançado no estudo do microscópico, ainda ignorava o mundo do espírito, que ele chamava de “mundo do infinito”.
Segundo Okada, a verdadeira ciência deveria evoluir para uma segunda fase, onde o espírito se tornaria o objeto central de investigação. Essa nova ciência não rejeita a ciência da matéria, mas a amplia, incorporando dimensões sutis da realidade que escapam aos instrumentos físicos. Ele propõe uma mudança de paradigma: da ciência da matéria para a ciência do espírito, do externo para o interno. Essa transição representaria uma revolução no pensamento humano, capaz de conduzir a civilização a um patamar mais elevado.
Sua visão cosmológica revela uma estrutura energética que sustenta tanto o universo quanto o ser humano. Tudo o que existe, segundo Okada, é composto por três elementos fundamentais: Fogo, Água e Solo — originados, respectivamente, do Sol, da Lua e da Terra. Esses elementos se cruzam e se fundem em sentidos vertical e horizontal, constituindo a base da energia vital. O Fogo representa o espírito, é imaterial e irradia do Sol; a Água é meio-matéria, presente no ar e originada da Lua; o Solo é matéria, base da forma física, originado da Terra. Essa tríade também se expressa nos elementos químicos: o oxigênio corresponde ao Fogo, o hidrogênio à Água e o nitrogênio ao Solo — revelando que os fundamentos da vida física possuem uma dimensão espiritual profunda.
Essa estrutura se manifesta no corpo humano, que Okada via como um microcosmo do universo. O coração absorve o elemento Fogo, o pulmão o elemento Água, e o estômago o elemento Solo. A febre, por exemplo, seria um processo de purificação espiritual, em que o coração intensifica a absorção do Fogo para dissolver toxinas. A morte representa a separação desses elementos: o espírito retorna ao Mundo Espiritual, a água ao Mundo Atmosférico, e o corpo ao Solo. Essa concepção revela uma interdependência entre os elementos e sua função energética na vida e na morte.
Essa ciência espiritual também fundamenta a teoria alimentar de Mokiti Okada. Para ele, a alimentação não é apenas uma questão biológica, mas espiritual. Os alimentos carregam energias correspondentes aos elementos Fogo, Água e Solo, e sua combinação equilibrada é essencial para a saúde integral do ser humano. Alimentos cultivados em harmonia com a natureza, sem o uso de agrotóxicos e/ou aditivos sintéticos, preservam a pureza espiritual dos elementos e contribuem para a saúde do corpo e da mente. Assim, comer torna-se um ato sagrado, uma forma de absorver a energia vital do universo e manter a sintonia entre o corpo físico e o espírito.
Ao propor essa ciência espiritual, Mokiti Okada rompe com a dicotomia entre fé e razão. Seu pensamento não se limita a dogmas ou rituais, mas busca compreender e aplicar leis universais que regem tanto o mundo visível quanto o invisível. Seu legado é, portanto, não apenas religioso, mas filosófico, científico e humanitário — uma ponte entre o espiritual e o racional, entre o céu e a terra.
